quinta-feira, 5 de agosto de 2021

Salmo 1 - Uma reflexão

À algum tempo tenho meditado no Salmo 1 e tem sido uma experiência desafiadora. A partir do momento que compreendi que esse salmo não ensina necessariamente algo a ser feito, mas declara as característica de um justo em contraste com o ímpio, percebi um pouco da profundidade do salmo que abre o saltério.

Portanto, a palavra chave aqui é declaração. Declarar alguma coisa não significa ordenar, dizer algo a ser feito, mas uma descrição. O Salmo 1, então, declara e-ou descreve o que é o justo, e se tratando da Palavra de Deus, seu relato não somente aponta o ideal, mas expõe com exatidão o que é um cristão, seja para o período do Antigo ou do Novo Testamento, considerando o desenvolvimento do cânon.

Dessa forma, três coisas descrevem o justo, segundo o Salmo 1. Primeiro, aponta onde está o prazer do justo; segundo, ilustra a condição do justo, derivado do ponto anterior, e terceiro, aponta o final da vida do justo e do ímpio, destacando o fundamento que estabelece essa circunstância última da vida.

Nos dois primeiros versículos encontro a declaração do que é o bem-aventurado. O texto diz: “Bem-aventurado o homem que não anda no conselho dos ímpios, não se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores. Antes, o seu prazer está na lei do Senhor, e na sua lei medita de dia e de noite.”

A bem-aventurança do justo está em contraste com a vida ímpia, porém, vê-se o eixo da descrição na palavra prazer. O justo, implicitamente, é descrito em termos de não andar, deter-se e assentar-se no modo de vida ímpia porque ele não tem prazer naquelas obras dos ímpios. Daí, observo que o salmista, após descrever a parte negativa, descreve a parte positiva, isto é, o prazer do bem-aventurado está na lei do Senhor.

Se o eixo do texto é o prazer, vejo aqui a necessidade de refletir sobre isso. O primeiro aspecto que destaco é que prazer não é uma experiencia produzida mecanicamente, e que difere de pessoa a pessoa. Exemplificando de forma particular, existem pessoas que têm prazer quando comem jiló, ainda que não expresse pelo termo prazer, eu, ao contrário, não tenho vontade nenhuma, já experimentei, mas a experiencia não foi prazerosa. O que quero dizer é que a ideia do prazer é muito sutil, e que uma leitura desatenta, pode levar a uma conclusão de dever, como se o bem-aventurado descrito pelo salmista tivesse que desenvolver prazer, enquanto a experiência prazerosa é, na verdade, intrínseca.

O segundo aspecto vem em seguida, pois, além do prazer, o bem-aventurado tem uma  constância no relacionamento com a Palavra de Deus, na qual “medita de dia e de noite”. Acredito que eu não desejo manter nenhuma relação constante com o jiló, pois não tenho prazer nele. Nesse caso, embora a descrição do salmo não seja uma consequência, isto é, porque eu tenho prazer na Palavra, medito nela dia e noite, não elimina o fato de que a meditação está relacionada com o prazer.

Assim, o ensino do salmista é mostrar que o bem-aventurado é alguém que naturalmente tem prazer em Deus, mais precisamente porque ele não compactua com as obras dos ímpios e tem seu prazer na Palavra de Deus. Fortalecendo o ensino, atento aqui ao prazer que não é mecânico, forçado, o que seria próprio do ímpio, mas ao prazer que apenas o coração do regenerado em Cristo pode desfrutar.

Pensar assim, conduz o cristão ao menos à reflexão. Pois, pode um cristão passar por momentos sombrios na sua caminhada, encontrando-se desestimulado para as coisas do Senhor levando-o a pensar que perdeu o prazer na Palavra de Deus. Entretanto, sendo verdadeiramente cristão, ele(a) pode utilizar os meios concedidos por Deus para renovar o seu vigor espiritual se expondo à Palavra de Deus, seja pela leitura devocional particular, a pregação e estudos bíblicos, em paralelo a uma vida de oração. E o próprio Espírito trará renovo ao coração.

Por outro lado, isso jamais será verdade na vida de um não eleito. Muitos são chamados, porém poucos são os escolhidos. Os meios são próprios para um cristão, tal como uma aspirina sana a dor de cabeça, mas na vida do ímpio, essa mesma aspirina não fará efeito, visto que sua doença é um câncer. Refletir sobre tais implicações trazem conforto e preocupação, porém, verdadeiro é o exercício constante de avaliarmos a nossa eleição, como Paulo disse aos coríntios [2Co 13.5]: “Examinai-vos a vós mesmos se realmente estais na fé; provai-vos a vós mesmo. Ou não reconheceis que Jesus Cristo está em vós? Se não é que já estais reprovados.” Onde está o meu prazer?

O segundo ensino continua com uma descrição ilustrativa da  vida do justo  da vida do ímpio. Mais uma vez, o salmista utiliza o contraste para demonstrar o seu ensino declarativo entre essas duas categorias de pessoas, e aqui ainda mais nítida fica a ideia que estamos sustentando, isto é, não é uma ordem, mas um a declaração sobre alguém.

O salmista diz: “Ele é como árvore plantada junto a corrente de águas, que, no devido tempo, dá o seu fruto, e cuja folhagem não murcha; e tudo quanto ele faz será bem sucedido. Os ímpios não são assim; são, porém, como a palha que o vento dispersa.”

O bem-aventurado é comparado a uma árvore. Então, se queremos reconhecer a condição de um cristão tal como o salmo descreve ele será alguém que vive nas melhores condições. Contudo, faço a observação aqui de que “melhores condições” não se refere à prosperidade material, embora seja legítimo mediante trabalho duro e honesto. O ponto aqui é vê através da ilustração do salmista alguém que tem suas necessidades plenamente supridas.   

 Dessa forma, o salmista descreve uma árvores em excelentes condições de vida. Ela está junto a uma corrente de águas, logo, ela tem suas raízes sempre nutridas. Essa árvore Produz fruto no devido tempo. Nada melhor do que viver a normalidade da vida, não é? Costumo comparar essa descrição da produção de frutos com a tecnologia de fertilizantes químicos que são colocados árvores para  que elas produzam mais rápido. Como é doloroso fazer algo que não fora do normal. Essa árvore conforme o salmista descreve, segue o tempo normal de vida. Por fim, é uma árvore vistosa, pois suas folhagem não murcha, ela tem vida.

O salmista faz uma ligeira conexão da árvore ilustrada com o bem-aventurado, afirma: “e tudo quanto ele faz será bem sucedido.” Esse deveria ser o curso natural da vida, porém, com a queda de Adão, que afetou todos os demais seres humanos, não possível que isso seja uma realidade constante. Contudo, essa impossibilidade não está na promessa, pois as palavras do Senhor são mais firmes que as Montanhas. Mas, ao contrário, a impossibilidade está na inconstância humana em não se deleitar e orientar sua vida pela Palavra de Deus.

Pensando um pouco mais sobre esse lapso na vida humana e a palavra de Deus, podemos verificar algum orientações. Por exemplo, Adão e Eva foram castigados por causa da desobediência ao que Deus lhes havia dito. Do contrário, seriam plenamente bem sucedidos em tudo. Josué foi orientado a não se desviar da Lei do Senhor [Js 1.8]. Davi, quando transferiu o trono ao seu filho Salomão, deu-lhe a mesma orientação, “guardas os preceitos do Senhor” [1Rs 2.3-4]. Jesus ensina que o amor por Deus seria demonstrado quando se procurasse cumprir os mandamentos [Jo 14]. Paulo, sabedor do que é bom para a vida ordena que Timóteo permanecesse nas sagradas letras [2Tm 3.14-15]. Uma lista como essa não se esgota com facilidade, diante do ensino.

Não se trata de meritocracia, mas da graça galardoadora de Deus sobre seus filhos em Cristo. Se consideramos a ilustração da árvore, percebe-se que ali está a graça, pelo simples fato dela ter sido plantada junto à corrente de águas. Deus é continuamente gracioso com seus filhos, apesar deles, e isso se revela na aproximação que o próprio Deus promove entre o homem e sua revelação, por meio da qual pode-se, mediante a regeneração do Espírito, estabelecer um relacionamento entre Deus e sua criatura, mediante Jesus Cristo.

Em termos práticos, ser bem sucedido é encontrar na Palavra tudo o que necessitamos para amar a Deus e ao próximo. Tenho que ser franco comigo e declarar que ser bem sucedido conforme a Escritura extensamente mostra é uma tarefa que não estou pronto para desenvolver, se não para fazer pequenos rabiscos, diante da grandiosa verdade que é ser bem sucedido segundo Deus. Contudo, satisfaço-me aqui em considerar essa condição na medida que tenho consciência de que Deus está em paz comigo, uma vez que fui justificado em Cristo.

Até aqui, tratando sobre a segunda parte do salmo, falamos sobre coisas boas, o que deveria ser uma tarefa mais fácil do que falar de coisas ruins. Porém, a graça abunda de tal maneira sobre o pecado, que falar do bom [bom Mestre - Lc ] é quase impossível para uma criatura finita. Falar do que é ruim é muito fácil no Salmo 1, pois a ilustração contrastante agora é de que o ímpio é como “a palha que o vento dispersa”.

Se o bem-aventurado é uma árvore cheia de vigor, o ímpio é como palha. Folha seca, bagaço de cana, resíduo da pia, lixo, poeira, os sinônimos são muitos, mas se resumem em apenas uma palavra – nada. Noutro lugar já foi dito, a palha serve apenas para ser ajuntada e queimada, seu fim é a destruição. Assim, se a graça descrita na árvore é infinita, de igual modo é infinita a destruição do ímpio. Se em um a graça é abundante, no outro a ira tem o mesmo peso.

Compreender, portanto, o Salmo 1, é ver conceito, é ver imagens. Conceito exato que jamais pode ser alterado, exposto no prazer na Lei do Senhor. Imagem exposta por vida e morte.

 

        

      

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

E não nos deixes cair em tentação; mas livra-nos do mal [Mt 6.13]

E não nos deixes cair em tentação; mas livra-nos do mal [Mt 6.13]

Nesta petição da oração do Pai nosso, vemos a atitude de uma coração piedoso que não tem prazer em pecar contra o Deus Pai e que, por isso, pede livramento para não cair no pecado da tentação.

A primeira verdade expressa na oração é a confiança no Senhor para guardar seus filhos. Cair na tentação é se entregar aos desejos do coração enganoso, que conduz o homem a caminhos que, aos seus olhos, parecem caminhos de vida, mas que na verdade são caminhos de morte. Como diz o pregador, esse é o convite da mulher (representando a loucura) “as águas roubadas são doce e o pão comido às escondidas é agradável” [Pv 9.17], os filhos de Deus oram para serem guardados desses convites malignos.

Esse pedido é contrastado com o pedido de livramento. Não deixar cair, portanto, é livrar o cristão do mal. Esse mal, conforme seu significado na língua grega, diz respeito a pecados de ordem moral, perversa, que representam uma afronta à santidade do Deus pai.

A consciência de alguém que sabe da realidade do pecado, que tenazmente o assedia, recorre ao Deus Pai por socorro. Significa então o reconhecimento da sua fraqueza para resistir por suas próprias forças às investidas de um coração enganoso, do sistema desse mundo e de Satanás.

Como vimos na última devocional, Deus é gracioso, libera perdão gratuitamente àqueles que se apresentam arrependidos. Ao mesmo tempo, ele é quem sustentará seus filhos na caminhada da vida cristã, guardando-os do mal. Na oração do Pai nosso, portanto, temos abundante graça para viver de modo digno do evangelho.

e perdoa-nos as nossas d´ividas, assim como nos temos perdoado aos nossos devedores. [Mt 6.12]

“Perdoa nossas dívidas, assim como nós perdoamos os nosso devedores” [Mt 6.12]

Esse ponto da oração talvez seja um dos mais sensíveis, especialmente ao tocar no coração, naquele orgulho que por vezes conduz o homem a uma atitude ausente de graça, como se tal pessoa merecesse alguma coisa da parte do Senhor.

O primeiro ensino dessa petição é a súplica pela graça do Senhor Jesus. Suplicar por perdão é a condição de alguém que tem consciência dos seus pecados e que, arrependido, pede perdão. Mas alguém merece o perdão do Deus Pai? Os pecados ferem a santidade e honra de Deus o tempo todo. Da menor à maior ofensa, ela sempre representará rebeldia para com o Criador.

Mas a graça de Deus está presente e permeia o relacionamento do Deus santo com seus filhos. A graça é o tributo perfeito do Deus que perdoa, mesmo sem o ofensor merecer. Como disse Davi: “sacrifícios agradáveis a Deus são o espírito quebrantado; coração arrependido e contrito, não o desprezará, ó Deus” [Sl 51.17]. Deus não esconde seu rosto diante de uma coração arrependido, pelo contrário, ouve e perdoa.

A condição do perdão, embora seja fruto da graça, acontece no relacionamento com nosso próximo. Jesus diz, “assim como nós perdoamos os nosso devedores.” É muito estranho desejar o favor de Deus para perdoar os pecados e não ter essa mesma atitude para com o próximo. A oração, então, vai além do receber perdão, destacando alguém que faz daquela graça de Deus uma atitude presente nos seus relacionamento, alguém que perdoa. Se Deus que tem todos os motivos para não liberar perdão, perdoa, o que faz de você melhor que Deus para não perdoar?

Portanto, ter condições de perdoar é uma dádiva de alguém que desfruta de uma relacionamento de amor e misericórdia com o Deus Pai. Do contrário, se você recebe perdão de Deus, mas não consegue perdoar o seu próximo, provavelmente a tese de Tiago seja verdade em sua vida: “fé sem obras é morta”  [Tg 2.26].      

terça-feira, 15 de setembro de 2020

O pão nosso de cada dia dá-nos hoje [Mt 6.11]

Temos acompanhado como a oração do Pai nosso é rica! Não são poucos os livros já produzidos sobre essa porção da Escritura. Hoje meditaremos um pouco mais nessa oração.

A porção de hoje inicia a segunda parte da oração. A primeira, os estudiosos geralmente apontam, está relacionado a Deus, e a segunda a nós. Essa divisão presta-se para efeito de entendimento lógico do texto, sem esvaziar a confiança necessária que devemos ter em Deus. Portanto, ela começa com: "o pão nosso de cada dia dá-nos hoje" [Mt 6.11]. 

Essa petição confronta nossa auto confiança. Jesus insiste conosco que o pão é para o dia vivido, e Ele proverá. Faz sentido então o versículo que diz: não só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede a boca de Deus [Dt 8.3]. Aplicando isso, devemos confiar no Deus que provê e não na provisão. Assim, com essa petição, expomos nossa confiança no Senhor, o qual supre nossas necessidades básicas.

Os dias atuais desafiam a todo cristão nessa petição. Até que ponto você, leitor, tem aplicado esse ensino à sua vida? O medo e o fato do desemprego tem alcançado a muitos. Mas como cristão, lembre-se dessa oração, e dessa petição em especial. Deus é quem supre, e você deve confiar. Portanto, ore, sem vacilar, rendendo graças ao Senhor pelo pão de hoje, pois Deus sabe do que você precisa [Mt 6.25-34].

 




segunda-feira, 31 de agosto de 2020

"faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu; [Mt 6.10].

Na última devocional vimos mais um ato da oração que o Senhor Jesus ensinou, tratando da seguinte afirmação: "venha o teu reino". Aprendemos que esse ato representa o anseio da igreja pelo retorno de Cristo para trazer redenção final, e que, consequentemente, trará juízo contra os inimigos da cruz. Hoje veremos mais um parte: "faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu; [Mt 6.10]."

O primeiro ensino nos remete ao princípio fundamental da oração que é a primazia da vontade de Deus. Quão valiosa essa verdade é para nós do século XXI. Dias em que a grande maioria das pessoas estão servidas de tudo o que querem. Mas quando nos submetemos à oração, não se trata mais da minha vontade, mas a de Deus. E Jesus nos ensina, não apenas aqui, mas mostra em sua vida quando, mesmo sabendo da profecia de que "ao SENHOR agradou esmagá-lo, fazendo-o sofrer" [Is 53.10], pediu ao Pai que o livrasse da cruz. E como sabemos, a sua vontade não foi concretizada, mas a do Deus Pai. 

A oração ainda diz que essa vontade deve ser concretiza na terra, tal como é no céu. E o que acontece no céu? Não sabemos muita coisa, contudo, temos certeza de que lá não há pecado, e que os anjos adoram ao Senhor ininterruptamente. Esse deveria ser o nosso maior anseio, isto é, adorar a Deus por toda a vida, e não ter a presença do pecado. Por isso a petição "venha o teu reino" é tão especial, pois só assim desfrutaremos da plenitude de Deus!

Portanto, aquele que pertence ao Senhor, submete-se à vontade de Deus na oração, afirmando: "faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu". Pois, sobretudo, sabe que a vontade de Deus sempre será boa, agradável e perfeita [Rm 12.2]. 



 







Salmo 1 - Uma reflexão

À algum tempo tenho meditado no Salmo 1 e tem sido uma experiência desafiadora. A partir do momento que compreendi que esse salmo não ensina...