À algum tempo tenho meditado no Salmo 1 e tem sido uma experiência desafiadora. A partir do momento que compreendi que esse salmo não ensina necessariamente algo a ser feito, mas declara as característica de um justo em contraste com o ímpio, percebi um pouco da profundidade do salmo que abre o saltério.
Portanto, a palavra chave aqui é declaração.
Declarar alguma coisa não significa ordenar, dizer algo a ser feito, mas uma descrição.
O Salmo 1, então, declara e-ou descreve o que é o justo, e se tratando da
Palavra de Deus, seu relato não somente aponta o ideal, mas expõe com exatidão
o que é um cristão, seja para o período do Antigo ou do Novo Testamento, considerando
o desenvolvimento do cânon.
Dessa forma, três coisas descrevem o
justo, segundo o Salmo 1. Primeiro, aponta onde está o prazer do justo;
segundo, ilustra a condição do justo, derivado do ponto anterior, e terceiro,
aponta o final da vida do justo e do ímpio, destacando o fundamento que
estabelece essa circunstância última da vida.
Nos dois primeiros versículos
encontro a declaração do que é o bem-aventurado. O texto diz: “Bem-aventurado o
homem que não anda no conselho dos ímpios, não se detém no caminho dos
pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores. Antes, o seu prazer está
na lei do Senhor, e na sua lei medita de dia e de noite.”
A bem-aventurança do justo está em
contraste com a vida ímpia, porém, vê-se o eixo da descrição na palavra prazer.
O justo, implicitamente, é descrito em termos de não andar, deter-se e
assentar-se no modo de vida ímpia porque ele não tem prazer naquelas obras dos
ímpios. Daí, observo que o salmista, após descrever a parte negativa, descreve a
parte positiva, isto é, o prazer do bem-aventurado está na lei do Senhor.
Se o eixo do texto é o prazer, vejo
aqui a necessidade de refletir sobre isso. O primeiro aspecto que destaco é que
prazer não é uma experiencia produzida mecanicamente, e que difere de pessoa a
pessoa. Exemplificando de forma particular, existem pessoas que têm prazer quando
comem jiló, ainda que não expresse pelo termo prazer, eu, ao contrário, não
tenho vontade nenhuma, já experimentei, mas a experiencia não foi prazerosa.
O que quero dizer é que a ideia do prazer é muito sutil, e que uma leitura
desatenta, pode levar a uma conclusão de dever, como se o bem-aventurado descrito
pelo salmista tivesse que desenvolver prazer, enquanto a experiência prazerosa
é, na verdade, intrínseca.
O segundo aspecto vem em seguida, pois,
além do prazer, o bem-aventurado tem uma
constância no relacionamento com a Palavra de Deus, na qual “medita de
dia e de noite”. Acredito que eu não desejo manter nenhuma relação constante
com o jiló, pois não tenho prazer nele. Nesse caso, embora a descrição do salmo
não seja uma consequência, isto é, porque eu tenho prazer na Palavra, medito
nela dia e noite, não elimina o fato de que a meditação está relacionada com o
prazer.
Assim, o ensino do salmista é mostrar
que o bem-aventurado é alguém que naturalmente tem prazer em Deus, mais
precisamente porque ele não compactua com as obras dos ímpios e tem seu prazer
na Palavra de Deus. Fortalecendo o ensino, atento aqui ao prazer que não é mecânico,
forçado, o que seria próprio do ímpio, mas ao prazer que apenas o coração do
regenerado em Cristo pode desfrutar.
Pensar assim, conduz o cristão ao menos
à reflexão. Pois, pode um cristão passar por momentos sombrios na sua
caminhada, encontrando-se desestimulado para as coisas do Senhor levando-o a
pensar que perdeu o prazer na Palavra de Deus. Entretanto, sendo verdadeiramente
cristão, ele(a) pode utilizar os meios concedidos por Deus para renovar o seu
vigor espiritual se expondo à Palavra de Deus, seja pela leitura devocional
particular, a pregação e estudos bíblicos, em paralelo a uma vida de oração. E
o próprio Espírito trará renovo ao coração.
Por outro lado, isso jamais será
verdade na vida de um não eleito. Muitos são chamados, porém poucos são os
escolhidos. Os meios são próprios para um cristão, tal como uma aspirina sana a
dor de cabeça, mas na vida do ímpio, essa mesma aspirina não fará efeito, visto
que sua doença é um câncer. Refletir sobre tais implicações trazem conforto e
preocupação, porém, verdadeiro é o exercício constante de avaliarmos a nossa
eleição, como Paulo disse aos coríntios [2Co 13.5]: “Examinai-vos a vós mesmos
se realmente estais na fé; provai-vos a vós mesmo. Ou não reconheceis que Jesus
Cristo está em vós? Se não é que já estais reprovados.” Onde está o meu prazer?
O segundo ensino continua com uma descrição
ilustrativa da vida do justo da vida do ímpio. Mais uma vez, o salmista
utiliza o contraste para demonstrar o seu ensino declarativo entre essas duas categorias
de pessoas, e aqui ainda mais nítida fica a ideia que estamos sustentando, isto
é, não é uma ordem, mas um a declaração sobre alguém.
O salmista diz: “Ele é como árvore plantada
junto a corrente de águas, que, no devido tempo, dá o seu fruto, e cuja
folhagem não murcha; e tudo quanto ele faz será bem sucedido. Os ímpios não são
assim; são, porém, como a palha que o vento dispersa.”
O bem-aventurado é comparado a uma
árvore. Então, se queremos reconhecer a condição de um cristão tal como o salmo
descreve ele será alguém que vive nas melhores condições. Contudo, faço a
observação aqui de que “melhores condições” não se refere à prosperidade
material, embora seja legítimo mediante trabalho duro e honesto. O ponto aqui é
vê através da ilustração do salmista alguém que tem suas necessidades
plenamente supridas.
Dessa forma, o salmista descreve uma árvores
em excelentes condições de vida. Ela está junto a uma corrente de águas, logo,
ela tem suas raízes sempre nutridas. Essa árvore Produz fruto no devido tempo.
Nada melhor do que viver a normalidade da vida, não é? Costumo comparar essa
descrição da produção de frutos com a tecnologia de fertilizantes químicos que
são colocados árvores para que elas
produzam mais rápido. Como é doloroso fazer algo que não fora do normal. Essa árvore
conforme o salmista descreve, segue o tempo normal de vida. Por fim, é uma
árvore vistosa, pois suas folhagem não murcha, ela tem vida.
O salmista faz uma ligeira conexão da
árvore ilustrada com o bem-aventurado, afirma: “e tudo quanto ele faz será bem sucedido.”
Esse deveria ser o curso natural da vida, porém, com a queda de Adão, que
afetou todos os demais seres humanos, não possível que isso seja uma realidade
constante. Contudo, essa impossibilidade não está na promessa, pois as palavras
do Senhor são mais firmes que as Montanhas. Mas, ao contrário, a impossibilidade
está na inconstância humana em não se deleitar e orientar sua vida pela Palavra
de Deus.
Pensando um pouco mais sobre esse
lapso na vida humana e a palavra de Deus, podemos verificar algum orientações.
Por exemplo, Adão e Eva foram castigados por causa da desobediência ao que Deus
lhes havia dito. Do contrário, seriam plenamente bem sucedidos em tudo. Josué
foi orientado a não se desviar da Lei do Senhor [Js 1.8]. Davi, quando
transferiu o trono ao seu filho Salomão, deu-lhe a mesma orientação, “guardas
os preceitos do Senhor” [1Rs 2.3-4]. Jesus ensina que o amor por Deus seria
demonstrado quando se procurasse cumprir os mandamentos [Jo 14]. Paulo, sabedor
do que é bom para a vida ordena que Timóteo permanecesse nas sagradas letras
[2Tm 3.14-15]. Uma lista como essa não se esgota com facilidade, diante do ensino.
Não se trata de meritocracia, mas da
graça galardoadora de Deus sobre seus filhos em Cristo. Se consideramos a
ilustração da árvore, percebe-se que ali está a graça, pelo simples fato dela
ter sido plantada junto à corrente de águas. Deus é continuamente gracioso com
seus filhos, apesar deles, e isso se revela na aproximação que o próprio Deus
promove entre o homem e sua revelação, por meio da qual pode-se, mediante a
regeneração do Espírito, estabelecer um relacionamento entre Deus e sua
criatura, mediante Jesus Cristo.
Em termos práticos, ser bem sucedido
é encontrar na Palavra tudo o que necessitamos para amar a Deus e ao próximo. Tenho
que ser franco comigo e declarar que ser bem sucedido conforme a Escritura
extensamente mostra é uma tarefa que não estou pronto para desenvolver, se não
para fazer pequenos rabiscos, diante da grandiosa verdade que é ser bem
sucedido segundo Deus. Contudo, satisfaço-me aqui em considerar essa condição
na medida que tenho consciência de que Deus está em paz comigo, uma vez que fui
justificado em Cristo.
Até aqui, tratando sobre a segunda
parte do salmo, falamos sobre coisas boas, o que deveria ser uma tarefa mais
fácil do que falar de coisas ruins. Porém, a graça abunda de tal maneira sobre
o pecado, que falar do bom [bom Mestre - Lc ] é quase impossível para uma
criatura finita. Falar do que é ruim é muito fácil no Salmo 1, pois a
ilustração contrastante agora é de que o ímpio é como “a palha que o vento dispersa”.
Se o bem-aventurado é uma árvore
cheia de vigor, o ímpio é como palha. Folha seca, bagaço de cana, resíduo da
pia, lixo, poeira, os sinônimos são muitos, mas se resumem em apenas uma
palavra – nada. Noutro lugar já foi dito, a palha serve apenas para ser
ajuntada e queimada, seu fim é a destruição. Assim, se a graça descrita na árvore
é infinita, de igual modo é infinita a destruição do ímpio. Se em um a graça é
abundante, no outro a ira tem o mesmo peso.
Compreender, portanto, o Salmo 1, é
ver conceito, é ver imagens. Conceito exato que jamais pode ser alterado,
exposto no prazer na Lei do Senhor. Imagem exposta por vida e morte.
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